Resenha Histórica

 


Decorria o ano de 1977. Os ecos da revolução de Abril de 1974 faziam-se sentir nas mais variadas áreas da sociedade portuguesa. O associativismo sofria forte impulso, sendo tido como a via adequada para a resolução de dificuldades sentidas pelos cidadãos. Associações culturais e desportivas, cooperativas de habitação, consumo, educação, eram, entre outras, formas de intervenção e participação na sociedade na busca de soluções para os mais diversificados problemas sociais.

Também em Fafe, um grupo de pais de crianças "deficientes", apoiados no voluntarismo e entusiasmo do P. João Baptista Alves da Mota, Pároco de Antime, e na Comissão Paroquial de Acção Social da freguesia de Antime, decidiram unir-se e, em conjunto, procurar resposta para o grave problema que os afligia. Na escola regular não havia lugar para seus filhos portadores de “deficiência” e, por isso, sentiam que se tornava urgente encontrar uma alternativa válida. Acreditava-se que a criação de uma escola especial seria o melhor caminho a percorrer, a solução mais viável.

A informação ocasionalmente recolhida junta do Instituto Novais e Sousa, de Braga, de que com quinze crianças portadoras de deficiência seria possível criar, em Fafe, uma escola do Ensino Especial, foi a luz que se acendeu indicando um caminho possível.

De imediato se procedeu ao levantamento das necessidades do concelho, enviando-se circulares aos Párocos, professores primários e Juntas de Freguesia, a solicitar colaboração nesta iniciativa.

Junto da CERCIGUI (Cooperativa de Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas de Guimarães), foi recolhida importante informação e apoio através do seu Director Técnico, Dr. Romeu e da Assistente Social, D. Bina.

Ao grupo inicial juntaram-se outras pessoas que, conhecedoras do projecto com ele se entusiasmaram de tal forma que em 25 de Outubro de 1978, no Cartório Notarial de Fafe, era lavrada a escritura de constituição da CERCIFAF - Cooperativa de Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas de Fafe, a qual foi assinada pelos seguintes cooperantes: Daniel de Oliveira, Maria Assunção Castro Cunha, Rosa Fernandina Leite Mendes Silva, Feliz José Castro da Cunha Nunes, João Baptista Alves da Mota, José Carlos Soares, João Soares, José Manuel Leite Dantas, José Faria e Filomena Silva.

A primeira sede social foi na casa do Major Miguel Ferreira (Major do Ribeiro), em Antime e a Comissão Instaladora era formada por: Daniel de Oliveira, Feliz José Castro Cunha Nunes, João Soares, José Carlos Soares, José Manuel Leite Dantas, Luís Daniel Roque, Maria Gabriela Miranda Mendonça Azinheira Vaz e P. João Baptista Alves da Mota

A CERCIFAF abria provisoriamente as suas portas em Maio de 1979 para receber os primeiros 22 alunos e uma reduzida equipa técnica liderada pelo Psicólogo, Dr. Luís Daniel Gil Roque. A abertura oficial verificar-se-ia em Novembro do mesmo ano. Estavam inscritos 42 alunos a quem era prestado apoio na escolaridade, com programas adaptados às necessidades de cada um.

Em 11 de Abril de 1981 realiza-se a primeira Assembleia Geral da CERCIFAF, com eleição dos primeiros Órgãos Sociais.

Aos poucos a Instituição foi crescendo a todos os níveis - a nível pedagógico com alterações várias na organização interna e aumento do número de técnicos; a nível dos alunos, não só pelas novas admissões mas ainda pelo seu natural crescimento e desenvolvimento; a nível administrativo pelos serviços que havia necessidade de assegurar.

As carências aumentam à medida que o tempo passa. A casa do Major do Ribeiro torna-se cada vez mais exígua e sem condições para dar a resposta quantitativa e qualitativa às constantes solicitações. Importava dar um novo passo, um grande e importante passo: construir de raiz umas instalações capazes de responderem às exigências futuras.

Para isso, em 1981, adquire-se o terreno sito no Monte de S. Jorge, na freguesia de Fafe, com vista à construção da Escola desejada e por demais necessária.

O processo avança e em 25 de Outubro de 1982, quatro anos passados após a sua constituição, a CERCIFAF celebra um Acordo de Cooperação com o Instituto do Emprego e Formação Profissional que lhe irá permitir edificar as instalações onde actualmente se encontra.

Nesta fase de dificuldades imensas mas de muito entusiasmo, tornou-se importante a colaboração das mais diversas entidades oficiais e particulares como IEFP (Instituto do Emprego e Formação Profissional), IASE (Instituto de Apoio Sócio Educativo), Governo Civil de Braga, Centro Regional de Segurança Social de Braga, Câmara Municipal de Fafe e Fundação Calouste Gulbenkian. Mas foi na comunidade local e nas suas instituições que os responsáveis da CERCIFAF sempre encontraram o apoio e a força dinamizadora que lhes impedia qualquer desânimo. Desde as crianças das escolas do 1º. ciclo que realizaram festas para angariação de fundos até aos responsáveis que ao longo dos anos serviram a autarquia local, passando por pessoas individuais, industriais, comerciantes, juntas de freguesia, escuteiros, escolas, grupos de jovens constituídos para o efeito, comunicação social local, clubes de serviços, emigrantes, grupos musicais, grupos culturais e desportivos, todos imaginavam e concretizavam formas de ajudar a CERCIFAF. Poder-se-á dizer que a CERCIFAF, foi um projecto verdadeiramente sentido, apoiado e vivido pela população fafense.

Após um árduo e contínuo trabalho, e com o apoio imprescindível da Câmara Municipal e do GAT (Gabinete de Apoio Técnico) que elaborou o projecto, foi possível adjudicar, em 28 de Março de 1983, a 1ª Fase do Novo Centro. Constituído por salas de aula, gabinetes, ginásio, oficinas para a pré-profissionalização, refeitório e serviços administrativos, seria inaugurado em 23 de Outubro de 1984 pelo Senhor Secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional, Dr. Rui Amaral, que, na sua intervenção, se referiu à CERCIFAF como sendo “obra da solidariedade e obra da democracia”.

Começou a funcionar a pré-profissionalização, como forma de preparar os jovens na transição para a vida activa. Contudo, as novas instalações não eram, ainda, suficientes para acolher todos os alunos. Faltavam espaços para os que frequentavam a valência educacional. Com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, do Governo Civil de Braga e da Câmara Municipal de Fafe foi possível arrancar com a construção da 2ª Fase, que terminou em Outubro de 1986.

Os alunos mais novos e os Serviços Administrativos abandonavam, definitivamente, as velhas instalações de Antime, para ocuparem um edifício com excelentes condições de funcionamento e dignidade.

Tendo em conta os bons serviços que vinha prestando à comunidade fafense, em 1987, a CERCIFAF foi considerada Instituição de Utilidade Pública, conforme publicação do Diário da República de 15 de Dezembro desse ano.

Em 1988, e na sequência da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, a Instituição candidata-se às Acções de Formação Profissional para Pessoas com Deficiência, co-financiadas pelo Fundo Social Europeu. Inicia-se um novo e significativo ciclo na vida da Instituição.

Um ano após o início das Acções de Formação Profissional é sentida a necessidade de se criarem as condições indispensáveis ao emprego dos jovens que frequentavam, com êxito, a Formação Profissional. Cedo se reconheceu que nem todos os formandos, uma vez concluído o curso, teriam oportunidade de ingressarem no chamado “mercado normal de emprego”, devido aos défices de produtividade que o tipo e grau de deficiência originava. Havia que encontrar soluções alternativas dentro de uma outra forma de emprego, ou seja, o “emprego protegido”, para o qual havia legislação específica.

Mais uma vez com o apoio da Câmara Municipal de Fafe, foi possível adquirir dois lotes de terreno, sitos na freguesia de Medelo, para neles se instalarem dois Enclaves (estruturas de emprego protegido), em colaboração com duas empresas privadas, empregando cerca de vinte alunos.

Hoje, é com certo orgulho que a CERCIFAF frequentemente afirma dispor de uma das mais elevadas taxas de sucesso na integração profissional e social de pessoas com deficiência em todo o país, fruto não só do importante trabalho desenvolvido na Instituição mas sobretudo da grande abertura, sensibilidade e colaboração dos empresários fafenses e de outros concelhos limítrofes, os quais acreditaram nas potencialidades das pessoas "diferentes" e lhes concederam a oportunidade de se realizarem profissionalmente.

A outros níveis de intervenção, a Instituição partilhava dificuldades e anseios com outras congéneres, colaborando desde a primeira hora na implantação da UNICERCINORTE (União das Cercis do Norte), da FENACERCI (Federação Nacional de Cooperativas de Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas), da Rede Europeia de Centros de Reabilitação, da FORMEM (Federação Nacional de Centros de Reabilitação Profissional e Emprego de Pessoas com Deficiência), integrando com frequência os órgãos sociais destas organizações.

A permanente atenção aos diversos programas nacionais e de iniciativa comunitária possibilitaram a apresentação de candidaturas em parcerias nacionais e transnacionais a Programas como HORIZON I e II, PROMINDO, HELIOS I e II, PRODEP, SER CRIANÇA, MOLIS e NÓNIO Século XXI, que vieram carrear novas e importantes sinergias potenciadoras de significativos avanços técnicos e patrimoniais.

Numa constante procura de soluções para a elaboração de um projecto de vida "à medida" de cada pessoa deficiente, a CERCIFAF estabeleceu Acordos de Cooperação com o Centro Regional de Segurança Social do Norte que permitiram o funcionamento de um CAO - Centro de Actividades Ocupacionais (em 1992), em que são apoiadas pessoas que não possuem capacidades para o trabalho e de uma Unidade Residencial (em 1994) para as pessoas que não têm apoio familiar.

A criação de novos serviços originou novas necessidades novas tanto no que se refere a recursos humanos, como ainda a espaços e equipamentos. Através de capitais próprios ou em parceria com outras entidades, a Instituição investiu fortemente na formação dos seus quadros e no permanente aumento das instalações e consequente equipamento, política que se tem revelado fundamental no quadro dos excelentes resultados obtidos ao longo de todos estes anos.

Com a finalidade de diminuir a dependência das entidades públicas, foram efectuados investimentos em áreas produtivas. A criação, na Instituição, de um Enclave de Serviços, possibilitou não só o emprego de pessoas com deficiência, como ainda permitiu gerar mais valias económicas e cimentar a relação de empatia existente com a comunidade local, ao fornecer-lhe serviços e produtos de qualidade. O serviço de venda de lenhas, a recolha de papel para reciclar (em colaboração com a Câmara Municipal de Fafe e Grupo Ecológico Natureza), o tratamento de roupa (lavagem, secagem e passagem a ferro), a produção e venda de software educativo, em cuja carteira de clientes se incluiu o Ministério da Educação, introduziram na Instituição uma nova postura e uma mais valia técnica e social que muito têm contribuído para a credibilizar e difundir tanto a nível nacional como comunitário. Hoje a CERCIFAF é uma Instituição consolidada, vê reconhecida a sua função social e é bem aceite nos meios em que intervém.

 

Neste breve "passear" pela CERCIFAF e tendo em vista uma melhor compreensão da sua actualidade, abordaremos, de seguida, de forma necessariamente breve e simples, cada uma das suas estruturas:

 

- Centro de Educação e Reabilitação (CER) - É uma Escola de Educação Especial que visa permitir aos alunos aquisições escolares básicas, a estimulação das capacidades cognitivas e instrumentais e a autonomia individual e social, tendo em conta o nível de desenvolvimento e de deficiência de cada criança.

Foi a primeira resposta à necessidade sentida pelos pais que desejaram e pensaram a CERCIFAF.

 

- Centro de Actividades Ocupacionais (CAO) – Criado em Junho de 1992, surge da necessidade de se encontrar resposta para os jovens que, terminado o seu período normal de permanência no Centro de Educação e Reabilitação e considerando o seu grau de deficiência, não têm condições para exercerem uma profissão em regime normal ou protegido.

Foi a forma encontrada para se atenuar não só o problema destes jovens mas também de suas famílias.

 

- Centro de Competências Nónio Século XXI – Resultando de candidatura apresentada no âmbito do Programa Nónio Século XXI foi a CERCIFAF acreditada como Centro de Competências.

Este programa visa o desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) na Educação.

O Centro de Competências da CERCIFAF tem como objectivos principais, prestar assistência técnico-pedagógica aos Projectos de Escola, o desenvolvimento da formação técnico-pedagógica dos actores educativos, a promoção do intercâmbio de materiais e experiências, a organização de encontros de reflexão e debate, a divulgação de soluções nacionais e internacionais da aplicação das TIC em Educação e o desenvolvimento de software educativo e suportes complementares.

 

- Centro de Formação e Emprego (CFE) – Tem por objectivos fundamentais o despiste vocacional e orientação, o desenvolvimento pessoal e intelectual, a aquisição de competências profissionais e a integração sócio-profissional e acompanhamento.

Para esta estrutura são encaminhados os jovens cujo grau de deficiência permite, de algum modo, “sonhar” com a integração em emprego e muitos têm sido aqueles que, com o apoio de empresários, têm encontrado o local certo para a sua realização profissional.

 

- Departamento Desportivo e Cultural - Tem por objectivos fundamentais: a educação física e psicomotora, a educação comportamental, o desenvolvimento de capacidades competitivas e a valorização pessoal e social.

Salientem-se os óptimos resultados obtidos pelo Departamento Desportivo, visíveis nos inúmeros troféus conquistados pelos seus atletas nas mais diversificadas provas nacionais e internacionais, em desporto adaptado. Tais êxitos têm sido frequentemente reconhecidos pela sociedade fafense, nomeadamente pela comunicação social, Assembleia Municipal e Câmara Municipal, reconhecimento esse traduzido na aprovação de votos de louvor e atribuição de medalhas aos nossos atletas.

Na área cultural, um pouco menos visível, foi possível implementar o Grupo Folclórico da CERCIFAF, com várias actuações em Portugal e Espanha e a organização de Festivais de Folclore, em Fafe.

 

- Enclave - Trata-se de uma unidade produtiva que dá resposta de emprego a jovens que, terminado o processo de formação e tendo atingido os objectivos ao nível de desempenho de competências, não têm possibilidades de integração no mercado normal de trabalho devido a problemas comportamentais ou a necessidade de acompanhamento especial para o desempenho de tarefas.

Esta estrutura da CERCIFAF de emprego protegido, visa o desenvolvimento de atitudes profissionais, a valorização pessoal, a promoção da autonomia e vida independente do jovem bem como a futura integração, se possível, no mercado normal de trabalho.

 

- Residência - Há pais de alunos da CERCIFAF que frequentemente manifestam a sua preocupação relativamente ao futuro de seus filhos, quando, naturalmente, deixarem de ter qualquer retaguarda familiar. Como resposta surgiu a criação de residências que possibilitam habitação a pequenos grupos de jovens que não possuem ou estão em risco de ficarem sem qualquer apoio familiar.

Esta estrutura tem ainda como finalidade a responsabilização e educação comportamental do jovem, o desenvolvimento de relações inter-pessoais, a promoção da autonomia e vida independente.

 

- Serviço de Terapias (ST) - Dada a dificuldade em se conseguirem técnicos destas áreas, só há poucos anos foi possível constituir este Serviço que consideramos de extrema importância para uma Instituição com as características da CERCIFAF, tendo em conta o tipo de população que serve. Possui técnicos de Fisioterapia para potencialização e manutenção das capacidades motoras; Terapia da Fala para o desenvolvimento da comunicação, linguagem e fala; Terapia Ocupacional para a promoção da funcionalidade e autonomia.

 

- Serviço de Intervenção Precoce (SIP) - Criado no ano 2000 em parceria com o Ministério do Trabalho e Solidariedade (CRSS de Braga), o Ministério da Educação (DREN) e o Ministério da Saúde (Centro de Saúde de Fafe), tem como objectivos estimular o desenvolvimento de crianças em risco, dos 0 aos 6 anos, incentivar o desenvolvimento activo da família na intervenção precoce, rentabilizar os recursos comunitários de apoio às famílias e alargar a intervenção precoce na perspectiva da prevenção primária.

Falámos de alguns aspectos que consideramos mais significativos na vida da CERCIFAF ao longo de 25 anos e que resultaram do esforço conjugado de todos quantos, de algum modo, contribuíram para a sua implantação e crescimento.

 

Julgámos ter dado uma panorâmica tão fiel quanto possível desta Instituição desde o seu nascimento. Contudo, temos perfeita consciência que as obras consideradas mais importantes são o produto de muitas horas, dias, meses e anos de trabalho que, quantas vezes sem visibilidade, alicerça e sustenta os factos mais visíveis que ficam para a história.

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