Sérgio - Um bom exemplo de integração

Sérgio é um jovem com uma multideficiência que lhe limita os movimentos com os membros direitos. Através da CERCIFAF, entrou por caridade numa tecelagem para varrer o pó resultante dos teares e actualmente é um dos elementos mais válidos da empresa, efectuando as tarefas de maior responsabilidade.

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A história do Sérgio é o exemplo fiel de uma integração de sucesso, de um jovem com deficiência, numa empresa têxtil de Fafe.

Em tempos, tinha ele nove anos, hoje tem 21, o destino levou a que a tragédia lhe batesse à porta e o acaso, fez com que caísse a um poço, traçando assim um futuro cheio de limitações. O Sérgio ficou com uma multideficiência, que lhe inibe os movimentos dos membros direitos. As limitações físicas aliado ao desgosto de perder o pai, que também faleceu por essa altura, fez com o Sérgio ficasse perturbado e recorre-se à ajuda de especialistas, no caso a Cercifaf.

Apesar de ser natural do Rego, Celorico de Basto, tomando conhecimento da situação, a instituição fafense não virou as costas ao Sérgio, e acolheu-o no seu leito. “Foi uma luta tremenda porque o Sérgio sempre quis aquilo que a gente achava que ele não era capaz de fazer: a construção civil”, recorda Luís Roque da Cercifaf. “Depois da formação, acabamos por o convencer de que a melhor solução para ele seria trabalhar na secretaria da Cerci porque ele é esperto tem uma boa memória visual”, acrescenta. No entanto, o Sérgio não se conseguiu aguentar lá por muito tempo. “Não gostava de trabalhar lá. Dava-me sono. Era muito parado”, disse o jovem. Um descontentamento que levou os responsáveis pela Cerci, a pensarem noutra alternativa e coloraram-no à experiência numa empresa de pintura, da região. Mas também aqui as coisas não resultaram. “O patrão achou que eu não conseguia. Não confiaram em mim”, disse o Sérgio.

Até que, surgiu uma nova oportunidade para o jovem com sérias limitações motoras. Uma empresa, tencionando fazer uma acção de caridade, abordou o Centro de Emprego de Fafe no sentido de que lhe arranjassem uma pessoa com deficiência, para que o pudessem ajudar. A Cercifaf tomou conhecimento do pedido, e dado que as exigências não eram muitas, levou lá o Sérgio à experiência. “Aquela empresa foi escolhida porque havia necessidade de contratar alguém para limpar o pó que os teares deitam constantemente e tínhamos a ideia que a limpeza daquilo justificaria o posto de trabalho do Sérgio”, disse Luís Roque. E assim foi. O Sérgio foi contratado para tratar da limpeza mas rapidamente superou todas as expectativas dos patrões. “Quando vi o Sérgio pela primeira vez, tanto eu como o meu sócio, reagimos da pior maneira possível”, confessa Fernandes Alves, sócio gerente da empresa. “Eu não via grande utilidade para uma pessoa como o Sérgio, numa tecelagem. Pensei sempre que ele só tinha uma deficiência mental e ele apareceu-me com aquela paralisia no lado direito. Sempre pensei que não fosse capaz”, admitiu. “O que é certo é que passado três dias a minha ideia estava completamente por terra. Hoje em dia Sérgio é uma pessoa válida, merece não por caridade, mas por direito todo o ordenado que recebe”, acrescentou.

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E assim é. Hoje em dia o Sérgio é na “Carla e Marinho”, um elemento válido, que desempenha uma das funções de maior responsabilidade na empresa. “Actualmente o Sérgio tem das actividades mais importantes que se pode ter numa firma, como uma tecelagem, ou seja, a responsabilidade dos fios e a calibragem dos cones”, disse o sócio gerente da empresa. “Só ele hoje é que faz a calibragem dos cones porque chegamos à conclusão de que ele é o mais capaz, não desfazendo dos outros empregados. E é um serviço de raciocínio matemático extremamente difícil de executar”, acrescentou.

E pelos vistos não é só a entidade patronal que está satisfeita. O próprio Sérgio também se identifica com o trabalho, dizendo-se por isso radiante com as funções atribuídas. “No início foi um bocadinho difícil mas à medida que o tempo foi correndo foi melhorando. E agora gosto muito de olhar pelo tear”, confidenciou-nos. “Primeiro comecei por varrer mas depois fui-me habituando a lidar com as máquinas e agora faço um bocado de tudo”, acrescentou orgulhoso. Ao que sabemos hoje em dia já é o próprio Sérgio que auxilia outros funcionários na calibragem dos cones, que sem qualquer preconceito, lhe vão pedir ajuda. Aliás desde o primeiro momento que o Sérgio foi bem recebido pelos colegas, que sempre o trataram por igual. “Todos os empregados os acolheram carinhosamente. E tenho um empregado, que é o Sr. Carlos, a quem encarreguei que andasse sempre junto do Sérgio, e foi ele que acabou por ensinar ao Sérgio muito do que ele hoje sabe”, explica o patrão.

Totalmente satisfeito com o trabalho do Sérgio, Fernandes Alves reconheceu que errou, inicialmente, ao integrar Sérgio na empresa por caridade e por isso aconselha outros empresários a não caírem no mesmo erro. “Ele aplicou-se, mereceu toda a confiança que lhe demos e só peço que todos os empresários não pensem como eu pensava. A caridade fica fora da empresa. Se querem fazer caridade com a Cercifaf façam donativos e ajudem de outras maneiras”, aconselha. E em jeito de conclusão acrescenta: “não têm porque ter medo em contratar pessoas assim porque eles são mesmos aplicados naquilo que fazem. Se houvesse outro Sérgio na Cercifaf, hoje mesmo o contrataria, sem relutância nenhuma”.

Também o Sérgio faz questão de reforçar a ideia de confiança por parte dos empresários para com as pessoas com deficiências. “Confiem em pessoas assim porque é preciso. Confiaram em mim e eu consegui”, referiu orgulhoso.



Correio de Fafe, 31 de Outubro de 2003

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